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Ervas "daninhas"?

A ANTIGA GUERRA CONTRA A FLORA SILVESTRE

São bonitas, úteis e extremamente resistentes. Uma força da natureza. Brotam nas calçadas, crescem nos pátios e baldios, trazem verde à beira das auto-estradas e dão dores de cabeça aos agricultores que não querem ver nada além das suas culturas nos campos. As ervas silvestres são verdadeiras sobreviventes de uma guerra antiga, que remonta possivelmente ao início da agricultura, há 11500 anos. 

Mas se a sua erradicação se devia no início à necessidade de reduzir a competição entre espécies silvestres e as culturas agrícolas, o combate à flora espontânea passou para o domínio da estética e da organização urbana, infiltrando-se na percepção das suas inúmeras espécies como indesejáveis e alvos a abater.

Com o desenvolvimento da indústria química durante o século XX, convencionou-se o uso de herbicidas na agricultura. O controle de ervas espontâneas, até então manual, depressa se transformou numa guerra química contra a flora silvestre. O uso desses mesmos químicos em qualquer tipo de lugar público foi normalizado, desde estradas e caminhos até escolas e jardins de infância. 

No entanto, a resistência das vulgarmente chamadas “daninhas” mostrou que elas não vão desistir de ocupar todo o território onde podem crescer naturalmente. No fim, é a evolução que dita as regras. Décadas de uso de produtos químicos numa estratégia de combate contra a natureza teve como efeito o surgimento das chamadas “super-daninhas”, ervas que “aprenderam” a resistir aos herbicidas aplicados. 

A taxa de reprodução das ervas silvestres e a sua diversidade genética é relativamente elevada, o que significa que perante distúrbios ambientais existem fortes possibilidades de se gerarem descendentes com as características necessárias para fazer face às novas ameaças, tal como químicos nocivos. Assim, as indústrias agro-químicas foram forçadas a descobrir novas fórmulas e misturas, muitas vezes mais tóxicas, para poder continuar a destruir as silvestres resistentes.

Mas a luta não terá fim. Nem mesmo o glifosato, o famoso herbicida desenvolvido pela Monsanto nos anos 70, que se tornou rapidamente num dos mais usados do mundo, escapou à justa fúria da natureza agredida. Hoje, mais de 20 espécies de ervas silvestres são resistentes ao químico. Esta substância continua no entanto a ser um dos herbicidas mais usados nos lugares públicos do país, apesar de se multiplicarem as provas de que é cancerígeno para humanos e nocivo para os ecossistemas em geral.

Ao mesmo tempo que o uso de herbicidas foi eliminando as beldroegas das calçadas e os quenopódios das beiras dos caminhos, entre tantos outros exemplos, o conhecimento destas plantas e de como as usar foi também diminuindo. Num espaço de talvez duas gerações, perdeu-se o hábito de colher e levar para casa um sem número de espécies para uso culinário, medicinal, cosmético e ornamental. O que era comida e remédio passou a ser alvo da “limpeza” dos espaços comuns.

A flora silvestre não se limita a ser útil aos humanos. É também alimento e abrigo para muitos outros habitantes dos nossos ecossistemas, como polinizadores e outros insectos auxiliares. Para além dos benefícios para a biodiversidade, a flora silvestre também protege os solos da erosão e facilita a infiltração de água, contribuindo assim para manter a humidade do solos e reabastecer os lençóis freáticos. 

Em zonas florestais, matos de flora silvestre albergam populações de insectos, nemátodes e uma grande variedade de outros animais e fungos que trabalham como um todo para a auto-regulação do sistema natural. Sem essa auto-regulação, alguns organismos podem mais facilmente tornar-se pragas que afectam tanto os ecossistemas naturais como as zonas agrícolas.

A flora silvestre, por todos estes motivos, merece o nosso reconhecimento, respeito e valorização. Numa sociedade reconhecedora dos sistemas naturais que lhe dão vida, ela seria ensinada nas escolas e usada diariamente pelas famílias, em vez de ser eliminada pelas autoridades com recurso a produtos tóxicos. A antiga guerra parece no entanto estar condenada ao fracasso. Aprender a viver com a flora silvestre e a reconhecer o seu valor nutricional, medicinal e estético pode bem ser a única opção. Será porventura também a mais desejável forma de pôr fim a uma guerra que não é apenas contra a flora silvestre mas que é no fundo uma manifestação de uma incapacidade subjacente: a de viver em harmonia com a vida que nos rodeia.

Fernando Naves Sousa

Biólogo e investigador em agroecologia

em "Plantas Medicinais & Comestíveis da Flora Silvestre - Agenda 2020", Fernanda Botelho

 

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